quarta-feira, 28 de agosto de 2013

Quanto vale uma árvore numa cidade como Lisboa?

Foto: Marta Pinto
Os inúmeros benefícios das florestas e das árvores em contexto urbano são muitas vezes menosprezados pelo facto de não se conhecer o seu valor económico.

Pois bem, um estudo realizado na cidade de Lisboa aplicando um programa que permite valorizar os serviços prestados pelas árvores (i.Tree STATUM) demonstra que por cada 1 euro investido nas árvores da cidade o retorno económico é de 3,5 euros.

De acordo com este estudo cada uma das 41.247 árvores da cidade 'devolve' anualmente aos lisboetas 124 euros em serviços (poupança de energia, melhoria da qualidade do ar, captação de carbono, redução da água de escorrência, aumento do valor da propriedade).

terça-feira, 27 de agosto de 2013

Árvores com história: Lódão-bastardo [Celtis australis]

Foto & Texto: Marta Pinto

O lodão-bastardo (Celtis australis) chegou a estar incluído na família Ulmaceae, mais tarde na família Celtidaceae (Lopez, 2007) e mais recentemente, após análise genética, foi integrado pelo Angiosperm Phylogeny Group, na familia Cannabaceae (a mesma do género Cannabis).

É uma árvore que pode atingir os 25 m de altura, dependendo das condições ambientais, com um tronco robusto e reto, de casca quase lisa. O seu crescimento é lento: em dez anos pode crescer 1,5 m em altura. Em termos de longevidade pode chegar aos 600 anos de idade.

Tem uma copa ampla, com os ramos principais eretos e os raminhos pendentes. A sua folha lanceolada com uma ponta pronunciada e ligeiramente curvada e um pecíolo bem desenvolvido é de cor verde intenso na face superior e mais pálida na página inferior. O bordo da folha é serrado. As características de folhas e os seus frutos com tamanho pouco maior que uma ervilha (que passam por 4 cores: verde, amarelo, avermelhado, negro) tornam-na facilmente reconhecível.

Em Portugal surge espontaneamente e é também muito usada como espécie ornamental nas cidades (porque resiste bem à poluição). Por exemplo, 16% das 41.247 árvores da cidade de Lisboa são desta espécie (Soares et al. 2011). Prefere regiões de clima suave, temperado, principalmente em solos frescos e soltos.

O fruto do lodão-bastardo é comestível, de sabor doce e agradável, embora seja uma drupa com muito 'caroço' e pouca 'carne'. Pelo facto de o seu fruto ser parecido com a ginja o lódão é também vulgarmente conhecido por ginjinha-do-rei. A espécie reproduz-se bem por semente e também por estaca.

As cocções de folhas e frutos do lódão-bastardo usaram-se na medicina popular para tratar a disenteria e fluxos menstruais abundantes.
A sua madeira flexível, compacta e elástica é muito apreciada para fazer aros de barris, remos, esquis, cajados. A madeira também é boa para queimar e fazer carvão. Teofrasto inclui esta madeira entre as mais adequadas para escultura e associa-a à madeira de buxo, por ser pesada e de grão fino.

A raiz e o lenho usaram-se em tempos para curtir as peles. Da sua raiz extrai-se ainda um corante amarelo usado para tingimentos na indústria têxtil.

As folhas e ramos tenros são usadas como forragem para alimentar o gado no inverno. Esta espécie chegou a ser plantada para formar cercas e suportar as vinhas.

Os nobres romanos usavam frequentemente esta espécie nos seus jardins. Uma história reza que o orador Lucio Craso tinha seis destas árvores no seu jardim e só aceitou vender a casa quando conseguiu que as árvores fossem excluídas do contrato de venda. Nas famílias tradicionais na Catalunha existe o costume de plantar um lódão no nascimento do primogénito (o que vai herdar as propriedades da família).

A propósito de uma árvore desta espécie o nosso poeta Eugénio de Andrade escreveu este testemunho, em 1996: "Se falei de árvores com ácida melancolia é porque me derrubaram uma das que mais amei na vida, o velho lódão que me entrava pela varanda e dava noticia das estações. O móbil foi, naturalmente, atravancar a rua com mais automóveis (...) Levei anos a lamentar-me até que, não há muito ainda, numa cerimónia em que surpreendentemente me fizeram cidadão honorário do Porto, disse ao Presidente da Câmara que preferia uma árvore à porta que uma medalha de ouro da cidade (...) ele prometeu-me outro lódão e cumpriu a promessa."

Bibliografia:
González, G.A.L, 2013. Guia de los árboles y arbustos de la Península Ibérica y Baleares. 3ª edición. Ed. Mundi-Prensa. 894pp.
Villén, A.R., 2010. Senderos entre los árboles. Alymar Ediciones. 384pp.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Árvores, calor e alterações climáticas

Foto: Marta Pinto
Um interessante estudo publicado em 2012 reforça a necessidade de os planos de ação sobre as alterações climáticas a nível local se centrarem não só em medidas de redução de gases com efeito de estufa (GEE) mas também em estratégias de gestão do calor nas áreas urbanas. De acordo com os autores, estas estratégias devem incluir a plantação de árvores e instalação de telhados verdes. Estas iniciativas permitem reduzir a temperatura ambiente e ao mesmo reduzir o consumo de energia (menos uso do ar condicionado) e a emissão de GEE. 

Esta recomendação é reforçada pelos resultados de um outro estudo de 2013 que sugere que as ondas de calor extremas vão tornar-se num fenómeno duas vezes mais comum em 2020 e que a sua frequência vai quadruplicar até 2040. Medidas de adaptação a estas condições urgem nas nossas cidades.

sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A chuva, o asfalto e as árvores e a floresta em contexto urbano

Reproduzido a partir do original (Armson et al. 2013)
Um recente estudo realizado por investigadores da Universidade de Manchester mostra que as árvores em contexto urbano têm uma enorme capacidade de reduzir a água de escorrência após episódios de chuva, o que é extremamente vantajoso para mitigar cheias e danos nos sistemas de saneamento urbano (90% da água entra em poucos minutos neste sistema).


O estudo comparou 9 lotes de 3X3 m cobertos apenas com asfato e 9 lotes de 3X3 m cobertos com asfato mas onde existia uma árvore* e respetiva área de implantação (1X1m) e comparou a capacidade de absorção de água de ambos os conjuntos de lotes em períodos de precipitação (também testaram 9 lotes com relva).

A escorrência dos lotes com asfalto é de 62% (inverno) enquanto que os lotes com árvores têm uma taxa de escorrência de apenas 26%. Esta redução deve-se ao efeito de intercepção da chuva pelas folhas, ramos e tronco da árvore, bem como à infiltração através da área de implantação da árvore. Um outro estudo realizado em Lisboa conclui que cada árvore da cidade intercepta 5m3 de água da chuva por ano.

Estudos anteriores já tinham concluído o enorme valor das árvores na redução da água de escorrência em contextos agrícolas, florestais e em parques urbanos. No caso declives cobertos de floresta alguns estudos mostram que apenas 16% da água da chuva escorre à superfície. A restante água fica retida na árvore e infiltra-se no solo. Por este motivo as florestas nativas são importantes na recarga dos lençóis freáticos.

*As 9 árvores usadas na experiência eram da espécie Acer campestre, com idade entre 7 e 9 anos, diâmetro da copa de 3.27±0.66m2 e altura de 4.89±0.10 m.  

quarta-feira, 21 de agosto de 2013

'A jornada ao bosque' da Epopeia de Gilgamesh

A Epopeia de Gilgamesh é considerada o primeiro sopro literário do ser humano. A obra foi descoberta no século 19 e sabe-se que foi escrita há 35 séculos, na Mesopotâmia, em pequenas pranchas de argila (imagem). Esta epopeia é constituída por 3.000 versos e conta a vida do grande rei Gilgamesh, senhor das terras de Uruk, em busca da sua imortalidade.

Um dos episódios da Epopeia de Gilgamesh é conhecido como ‘a jornada ao bosque’ e constitui igualmente a primeira parábola ecologista que se conhece.

Sucintamente a estória conta que Gilgamesh queria ser ‘um homem imortal’ e acreditava que atingiria esse estado construindo uma grande cidade. Mas para alcançar esse ambicioso objetivo precisava de madeira. Na terra de Gilgamesh existia um imenso bosque de cedros, mágico e intacto, cujos limites não se conheciam pois nunca ninguém tinha ousado entrar.

Enlil, o supremo deus sumério, tinha encomendado ao semideus Humbaba a proteção dos interesses da natureza e deste bosque de cedros em particular. E Humbaba protegia o bosque com todas as suas energias, podendo até ser cruel. Mas Gilgamesh não se deixou intimidar. Guiado pela sua ambição, ele e os seus homens carregados de ferramentas entraram no bosque determinados a eliminar Humbaba e levar toda a madeira do bosque. A luta foi feroz mas Humbaba acabou por perder a batalha contra a civilização e os cedros gemeram porque sabiam o que os esperava (‘podia ouvir-se a uma légua a triste canção dos cedros’). Em pouco tempo as árvores foram todas cortadas e as montanhas ficaram nuas. Ao ter conhecimento do sucedido, o deus supremo Enlil, lançou uma série de maldições à civilização: ‘que a vossa comida seja devorada e que a vossa água seja bebida pelo fogo’.

Este episódio da Epopeia de Gilgamesh é uma mostra que os seus autores não ignoravam as consequências da desflorestação, nomeadamente na degradação do solo e no ciclo hidrológico. E a história real demonstra-nos que esta estória acabou por passar da ficção à realidade e teve como consequência a decadência da civilização suméria (~2.000 a.C.).

Texto: Marta Pinto

terça-feira, 20 de agosto de 2013

Conhece(s) estes monumentos?

Foto: Conceição Almeida
As árvores de interesse público são árvores que pelo seu porte, desenho, idade, raridade ou pela história se distinguem e merecem ser protegidas.

São autênticos monumentos vivos!

Nos municípios da Área Metropolitana do Porto (AMP) contabilizamos à data, e de acordo com os dados públicos do ICNF, 5 alamedas, 2 arvoredos, 4 maciços e 30 árvores isoladas, totalizando 298 árvores monumentais classificadas.

Existem árvores de interesse público nos municípios de Arouca (2 árvores), Gondomar (1), Maia (2), Oliveira de Azeméis (3 árvores e 1 arvoredo), Porto (13 árvores isoladas, 4 alamedas, 3 maciços), Santa Maria da Feira (3 árvores), Santo Tirso (3 árvores, 1 alameda, 1 maciço), Trofa (2), Valongo (1), Vila Nova de Gaia (1 arvoredo). Em Matosinhos existia uma alameda classificada (com 39 tilias) mas foi recentemente desclassificada.

As árvores mais antigas estão na Quinta de Santo Inácio de Fiães (Vila Nova de Gaia), com 800 anos. A idade média das árvores classificadas na AMP é 153 anos.

De destacar que em Arouca, Gondomar, Maia e Oliveira de Azeméís existem 5 sobreiros (Quercus suber) com idades entre os 150 e 300 anos, o que para a espécie é significativamente longevo.


Entre os 16 municípios da AMP, os de Espinho, S. João da Madeira, Vila do Conde, Póvoa de Varzim e Vale de Cambra não têm qualquer árvore classificada de interesse público. Matosinhos passou recentemente a fazer parte desta lista.

Se conhece alguma árvore, ou conjunto de árvores, que julgue ser de especial interesse preservar, dirija-se ao ICNF, indicando a localização e, se possível, enviando uma fotografia.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Árvores com história: Bordo [Acer sp.]

Foto & Texto: Marta Pinto
O termo acer significa duro, forte, vigoroso (em latim). E este termo, por sua vez deriva do celta ac, que significa 'ponta' porque a madeira destas árvores era usada para fazer lanças.

Existem inúmeras espécies de Acer no mundo (198 para sermos mais exatos). Em Portugal, ocorrem espontaneamente a Zelha (Acer monspessulanum) e o Padreiro (Acer pseudoplatanus). Na Peninsula Ibérica existe ainda o A. campestre, A. opalus e A. platanoides, nenhum deles com ocorrência espontânea em Portugal.

No FUTURO - projeto das 100.000 árvores - já plantamos 2.306 zelhas (A. monspessulanum)


Os Acer foram venerados na Europa, desde os tempos pagãos até à Idade Média. Nesta época, quando era necessário abater uma destas árvores, levava-se a cabo a tarefa com a cabeça a descoberto, em sinal de respeito, e o corte era precedido por rituais e rezas.

Os Acer tinham a reputação de opor-se às forças do mal e por esse motivo eram encaixadas nas portas e janelas pequenas peças de madeira destas espécies para prevenir qualquer tipo de desgraça. Com o mesmo objetivo, o dia 24 de junho as portas e janelas eram decoradas com ramos de Acer com a intenção de as proteger dos raios.

Quer na mitologia japonesa, quer na chinesa há várias histórias com árvores do género Acer. Partilhamos uma das histórias que recolhemos: Huang-Ti era um dos mais importantes deuses chineses. Protegia os Homens ajudando-os a viver pacifica e honradamente. A tradição considera-o o primeiro grande imperador da China (Imperador Amarelo). Chi-You, um deus menor, atuava como mensageiro do grande deus e cumpria as suas tarefas fielmente até que um dia foi dominado pela ambição. Organizou uma rebelião armada para destronar o Huang-Ti. Nela colaboravam vários deuses menores e uma tribo bárbara (Miao-Tse). A batalha foi longa e sangrenta mas no final o Imperador venceu os rebeldes. Chi-You foi detido e amarrado com cordas e de tanto tentar libertar-se as cordas ficaram manchadas com o seu sangue. Depois de ser executado, estas cordas foram deitadas fora e no local onde cairam nasceram bordos. Por isso, todos os anos as folhas ficam vermelhas antes de morrer.


Flora-On

O Flora-On é um portal onde se pretende sistematizar informação fotográfica, geográfica, morfológica e ecológica das espécies de plantas vasculares autóctones ou naturalizadas listadas para a flora de Portugal (Continente e ilhas). Foi lançado ao público em Fevereiro de 2012,é coordenado pela Sociedade Portuguesa de Botânica e está a ser desenvolvido com base no trabalho voluntário de botânicos, naturalistas e investigadores.

Flora Ibérica


Flora Ibérica é um projeto nascido em 1980 e que pretende, mediante investigação taxonómica original, atualizar e sintetizar os conhecimentos atuais sobre plantas vasculares espontâneas na Península Ibérica e Ilhas Baleares, território de uma notável riqueza florística. O projeto é promovido pelo Real Jardim Botânico (Centro Nacional de Investigação Científica, Espanha) e envolve dezenas de editores, autores e acessores de 13 países distintos. www.floraiberica.es

quarta-feira, 14 de agosto de 2013

Árvores com história: Freixo [Fraxinus sp.]

Foto & Texto: Marta Pinto
O Freixo (Fraxinus sp.) tem na Pensinsula Ibérica 3 espécies: F. excelsior (apenas no norte), F. ornus (no mediterrâneo) e F. angustifolia (no resto da península). A espécie que estamos a plantar no âmbito do FUTURO é principalmente F. angustifolia, embora alguns exemplares de F. excelsior também tenham sido plantados na nossa região.

É uma árvore que prefere solos húmidos (embora possa suportar sequia graças ao seu extenso sistema radicular) e que pode viver até 300 anos, atingindo alturas que podem chegar até aos 35 m.

Fraxinus deriva do grego frassein, que significa separação. Crê-se que este nome resulta do facto de ser uma árvore frequentemente usada para fazer separação e delimitação de espaços. E por falar na Grécia, na mitologia grega o freixo era governado pelo deus Poseidón, deus primitivo da vegetação. E um grego, Dioscórides (séc. I), escreve sobre as propriedades do sumo de freixo na cura de mordeduras de víbora.

O freixo é uma espécie muito popular na mitologia escandinava e germânica. A árvore cósmica para estes povos - Yggdasril - era um freixo: os seus ramos estendiam-se por toda a superfície da terra, o seu ápice ascendia até ao paraíso e as suas raizes fundiam-se no coração da Terra. O deus que se ocupava do governo da Terra - Odin- colocava-se sob a copa de Yggdasril para tomar as decisões importantes.Era auxiliado nesta tarefa por vários animais: um par de corvos, uma águia, um abutre e um esquilo. O esquilo corria incessantemente entre a águia - pousada na copa da árvore - e o ouvido de Odin, contando a este em segredo todas as informações úteis trazidas pela ave, que com o seu olhar de longo alcance conseguia ver o que se passava em todo o universo.

Mais uma curiosidade: os druídas (sacerdotes) celtas invocavam o freixo em tempos de seca e pediam chuva, mas não uma chuva qualquer. O freixo tinha o mérito de trazer uma chuva mansa.

A madeira do freixo desde sempre foi muito valorizada pois é muito elástica, sólida e tenaz. Era usada para elaboração de ferramentas, carroças, e ainda é usada para fabricação de acessórios desportivos (suporta vibrações e choques repetidos).

Reza a lenda nórdica que a primeira poesia escrita foi registada sobre tábuas de freixo por Kvasir, o mestre das Runas.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Já pensou porque se toca em madeira para afastar uma ideia má?

Foto & Texto: Marta Pinto
Quando queremos afastar uma ideia má ou desejamos que algo não aconteça temos o costume de 'tocar na madeira'. E isso não acontece por acaso: ao procurar na bibliografia descobrimos que este simples gesto é um atavismo religioso que procura nas árvores o favor dos deuses que nelas vivem.

Desde tempos imemoriais que a relação da humanidade com as árvores é muito estreita, apesar de hoje em dia termos quase esquecido essa ligação.

Das árvores dependeu o progresso material da humanidade desde longa data, como se pode perceber ao estudar a história do crescente fértil, da Grécia micénica, da Grécia clássica, do período romano, da idade média...

As árvores têm ainda uma presença inequívoca na nossa espiritualidade. Já Plínio dizia que 'a sombra de uma árvore foi o primeiro templo do homem'. Não é por acaso que Nossa Senhora de Fátima aparece em cima de uma azinheira, que os cultos animistas vêem as árvores como seres sobrenaturais, morada dos espíritos, que a mitologia Grega tem uma árvore consagrada a cada deus: a Zeus estava consagrado o carvalho, a Apolo o loureiro...

Esta série que inauguramos hoje no nosso blogue - árvores com história - resulta de um interesse profundo que nutrimos pela papel da árvore na nossa história e mitologia. Aqui vamos partilhar algumas das nossas aprendizagens. Se conhecer estórias, mitos e detalhes da história sobre as árvores e a floresta ajude-nos a melhorar esta secção.

Árvores com história: Pilriteiro [Crataegus monogyna]

Foto & Texto: Marta Pinto
O Pilriteiro (Crataegus monogyna) é um arbusto ou pequena árvore da família Rosaceae (que inclui igualmente os morangueiros, as macieiras, as roseiras, as pereiras, as amendoeiras, entre outros) que pode atingir os 8 a 10 m de altura mas normalmente não ultrapassa os 4 m. Pode atingir os 500 anos de idade. Tem folha caduca.

Esta espécie é também chamada "espinheiro-branco" porque possui uns espinhos longos e aguçados nas axilas das folhas.

A palavra Crataegus provém do grego krátaigos (kratýs + aigos). Kratýs significa forte ou robusto e aigos está associado à palavra cabra.

O Pilriteiro é espontâneo na Europa, Ásia e norte de África e está presente em praticamente toda a Peninsula Ibérica.
Ocorre em climas frios e cálidos, desde o nível do mar até elevadas altitudes.

Uma das suas características distintivas são as flores brancas ou rosáceas em corimbo (grupo) que, quando fecundadas, no final do verão resultam num fruto vermelho (se maduro) mais ou menos do tamanho de uma ervilha. Este fruto - chamado pilrito - é comestível embora não seja muito saboroso quando ingerido em cru. Com ele elaboram-se deliciosas compotas ou vinho. Em assentamentos pré-históricos foram encontradas sementes de pilrito. Suspeita-se que faziam parte frequente da alimentação humana.

Estes arbustos também são usados como porta-enxertos de pereiras e de outras fruteiras desta família.

O Pilriteiro tem substâncias nas folhas e flores que são usadas em caso de insuficiência cardíaca e problemas cardiovasculares (melhora a circulação, usado em casos de angina de peito, arritmias, taquicardias, entre outros). As flores colhidas na primavera e secas constituem um excelente tónico cardiaco e também têm propriedades sedantes e antiespasmódicas. Foi demonstrado que dilatam as coronárias pelo que são recomendadas para a arteriosclerose e angina de peito.

No passado, o pilriteiro chegou a ser considerada uma planta infernal, pelos seus frutos vermelhos. No tempo da Grécia antiga e mesmo em Roma, o pilriteiro era uma planta proíbida dentro das casas, porque se acreditava que propiciava Artemis, uma deusa contrária às uniões monogâmicas e aos seus frutos. Por isso nos casamentos levavam-se cinco tochas feitas de madeira de pilriteiro. E anualmente os casais ofereciam ramos de pilriteiro floridos a Maia. Esta oferenda acontecia no mês de maio, mês da purificação geral. 

O pilriteiro foi posteriormente resgatado pelo cristianismo: a coroa de espinhos de Cristo teria sido elaborada com esta planta. E por isso, de árvore maldita passou a protetora, sendo ainda colocada em alguns locais estratégicos das casas para afastar os maus espíritos, mas sempre no exterior, não vá Artemis tecê-las... :)

Bibliografia:  
González, G.A.L, 2013. Guia de los árboles y arbustos de la Península Ibérica y Baleares. 3ª edición. Ed. Mundi-Prensa. 894pp.
Villén, A.R., 2010. Senderos entre los árboles. Alymar Ediciones. 384pp.
Chang, Q., Zuo, Z., Harrison, F., & Chow, M. S. S. (2002). Hawthorn. The Journal of Clinical Pharmacology, 42(6), 605-612.

(última atualização a 15.02.2014)

Um pequeno guia das árvores nativas de Portugal

Foto: Conceição Almeida
O Instituto de Conservação da Natureza e das Florestas disponibiliza um Guia sintético e prático sobre as espécies de árvores nativas de Portugal continental e seu uso em reflorestação. Consulte.




sexta-feira, 9 de agosto de 2013

Um Porto de Árvores


A Campo Aberto reenditou o pequeno livro Porto de Árvores sobre alguns jardins do Porto. Para saber mais.


quinta-feira, 8 de agosto de 2013

Equipa de voluntários palmilha a Freita e aprende vários segredos da terra

Foto: Bernardo Markowsky
No âmbito do Programa de Voluntariado Ambiental: Vigilância da Floresta na Serra da Freita em curso já passaram - e ficaram :) - por Arouca 12 voluntários aos quais se juntam mais nove nos próximos dias, até ao dia 1 de setembro. O tipico dia destes voluntários consiste em percorrer os trilhos pedestres que entrecruzam a Serra, aproveitando para fazer algumas paragens em zonas de grande interesse paisagístico, geológico, natural e cultural, como as 'Pedras Boroas do Junqueiro', a 'Portela da Anta', a aldeia de Albergaria da Serra, a 'Freixa da Mizarela'...

Foto: Bernardo Markowsky
Durante a sua estada os vigilântes voluntários têm contactado com as pessoas da terra e têm podido aprender muitos dos segredos da vida rural. Por exemplo, num dos dias um dos vigilantes observou uma grande acumulação de ramos secos em torno das árvores e naturalmente ficou apreensivo, pois pareciam 'piras'. Percebemos depois que os locais usam esses ramos como estratagema para para impedir que o gado que anda pela Serra sem pastor, use o tronco das árvores para se coçar. O natural gesto de se coçar no tronco, com o tempo, tira a casca à árvore e destrói o seu sistema vascular, podendo causar-lhe a morte. 

Mais detalhes e inscrições.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

Adoramos esta sequência: a beleza de semear

Esta sequência de imagens foi tirada em outubro de 2011 durante a nossa ação de formação Embaixadores da Floresta. Um dos pequenos presentes semeia com o máximo cuidado uma bolota de carvalho-alvarinho.

10 anos estão entre o Futuro Sustentável e o FUTURO

Há dez anos atrás iniciava-se o Futuro Sustentável - Plano Estratégico de Ambiente da Área Metropolitana do Porto, um processo participativo no qual colaboraram mais de 5.000 cidadãos, técnicos e profissionais da área, decisores políticos, investigadores, entre outros.

Uma das conclusões deste processo promovido inicialmente pela Lipor e, numa segunda fase, pela Área Metropolitana do Porto: os ecossistemas florestais e a sua gestão são um dos grandes desafios da região. Duas das medidas propostas: mobilização dos proprietários florestais e da comunidade em geral; implementação de um programa de sensibilização envolvendo os cidadãos em iniciativas concretas de promoção da floresta (...).

Com o FUTURO - projeto das 100.000 árvores na Área Metropolitana do Porto - podemos dizer que o planeado vai tomando forma, em grande medida graças aos excelentes profissionais e cidadãos que se envolveram profundamente nesta causa. Felizmente nem todos os planos ficam na gaveta.


sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Árvores de Campanhã



Nos últimos meses, os Curador@s da Floresta Isabel Ribeiro, Fernando Oliveira e Teresa Araújo têm ido regularmente a Campanhã cuidar das árvores nativas que foram ali plantadas no inverno passado. A área arborizada com 120 nativas (ulmeiros, freixos, sanguinhos e sabugueiros), pelo grupo local do Projecto Rios e da Quercus e com a colaboração do CRE.Porto, localiza-se na margem esquerda do rio Tinto, na zona de Azevedo.

O mau tempo do inverno teve um impacto negativo na área plantada e o calor e chuva que veio posteriormente tem favorecido muito o crescimento da vegetação herbácea, que “abafa” as pequenas árvores. Daí a importância desta discreta e cuidada vigilância! Nas últimas saídas ao terreno, os voluntários tem “vistoriado” as 74 árvores sobreviventes, reabrindo clareiras à sua volta, regando e criando sombra para as pequenas árvores. Das árvores cuidadas, 56 estão bem desenvolvidas e em franco crescimento e 19 estão vivas mas debilitadas (podem ainda recuperar e por isso estão também a ser cuidadas). Um grande obrigado à determinação da Isabel, do Fernando, da Teresa e aos restantes valentes que têm ajudado a cuidar destas árvores! :)

Se estiveres interessad@ em ajudar nestas visitas regulares ao terreno (habitualmente durante a semana) contacta-nos.